4. Sobre a humildade
Abbas
Isaías disse sobre a humildade: “Ela não tem língua para dizer de alguém que
ele seja negligente ou, de outro, que ele seja desprezível. Ela não tem olhos
para ver os erros dos outros nem ouvidos para ouvir coisas prejudiciais à alma.
Ela não se preocupa com outra coisa que não sejam os próprios pecados. Ela é
pacífica com todas as pessoas” (J 716).
Conhecemos o
perigo que representa nosso gosto de falar sobre outros. Gostamos muito de
falar sobre os erros deles. Hoje a psicologia sabe que, aquele que com tanto
gosto fala sobre os erros do outro, na verdade está falando sobre si mesmo. Ele
quer desviar a atenção dos próprios erros; não só diante dos outros, mas também
do seu próprio espírito. Justamente por isso ele gosta de se ocupar mais com os
erros alheios. Existem pessoas que veem tudo o que está errado nos outros; têm
o olhar direcionado para os erros do próximo, abrindo desmedidamente seus
ouvidos assim que escutam alguém falar mal de outra pessoa. Toda a sua conversa
gira em torno daquilo que anda mal com outros. Às vezes justificam sua fala
diante de si e dos outros afirmando que não pretendem senão o seu bem e que
lhes desejam paz. Não obstante, constantemente se detêm nos erros que não lhes
pertencem. Para elas vale a palavra que certa vez foi cunhada por Hermann
Hesse: “O que não está em nós não nos incomoda”. Muitas vezes nos aborrecemos
com os outros porque eles vivem nossos próprios lados sombrios. E quanto mais
verbalizamos seus erros, mais cegos nos tornamos aos próprios lados sombrios.
págs. 26 - 27.
A humildade,
aliás, não tem, em princípio, nem olhos nem ouvidos para ver e ouvir o negativo
em outras pessoas. E quem é humilde também não sente necessidade de falar sobre
outrem. Ele só fala sobre si mesmo, sobre os próprios pecados. Nesse sentido, a
humildade é a virtude que se vincula à própria fragilidade, que ousa acetar-se
na própria humanidade e limitação. Quem faz isso não precisa espezinhar outras
pessoas; torna-se pacífico com todos os demais, e de forma natural, pois se
entende solidário com eles. Ora, ele possui os mesmos defeitos que eles. Assim,
deseja para si e para os outros que eles possam chegar à paz consigo mesmos.
Nesse caso, os erros diminuirão por si só. p. 27
5. Jejum verdadeiro
Um irmão
disse a Macário: “Pai, fiquei sem comer carne por 30 anos, mas ainda continuo
tentado nessa área”. O Pai antigo disse a ele: “Não me digas, filho meu, que
viveste 30 anos sem comer carne, mas te peço, filho meu, que me digas a
verdade: Quantos dias passaste sem falar mal do teu irmão, sem julgar o teu
próximo e sem deixar escapar da tua boca uma frase inútil?” O irmão se inclinou
e disse: “Reza por mim, Pai, para que eu comece” (J 746).
Em tempos
litúrgicos dedicados ao jejum muitos cristãos procuram jejuar. Isso é um bom
exercício. Os monges antigos queriam vencer suas paixões fazendo uso dessa
prática. O irmão que foi até Macário, um dos grandes Pais antigos,
aparentemente ainda tinha necessidade de lutar contra sua sexualidade. Ele
pensava que, não comendo carne, estaria livre de “tentações carnais”. Macário,
entretanto, expôs-lhe a relatividade de seu jejum. De nada adianta ao ser
humano jejuar e purificar o seu corpo pelo jejum se não purificar
simultaneamente o seu espírito. E a purificação do espírito ocorre quando ele
desiste de julgar e deixa de falar mal de outros. Julgar os outros com
facilidade é uma grande tentação, também e justamente para pessoas que estão
espiritualmente em busca. Os outros não praticam os mandamentos; não vão à
igreja; vivem superficialmente. Ora, com tais palavras revelamos a nós mesmos.
Nós preferíamos não precisar dar atenção aos mandamentos de Deus; na verdade,
não estamos interessados em ir à igreja. Nós o fazemos somente pela boa
reputação que isso representa para nós mesmos e para os outros. O mais
importante exercício de jejum é, para Macário, o jejum da fala. Não devemos
falar mal das outras pessoas, como também não julgá-las nem avaliá-las, não proferindo
palavras inúteis. Devemos refletir sobre o que dizemos: É útil para os outros o
que falamos? Isso os edifica? Ou: Nossas palavras servem para nos colocar no
centro do assunto? Encobrimos com nossa fala abundante nosso vazio interior,
porque temos medo de nos expor a ele? O jejum, como entendido pelos monges, tem
o objetivo de nos levar à verdade; pretende revelar os pensamentos que existem
em nós. Então, devemos colocar isso diante de Deus para que seu Espírito
purifique e transforme o nosso espírito. págs. 28-29
16. Perda de valor
Amma Sinclética
disse: “Como um tesouro perde em valor quando é elevado para a luz, assim
desaparece uma virtude quando ela é conhecida e tornada pública. E como a cera
derreto perto do fogo, assim também a alma se derrete com elogios, e volta a
desperdiçar seu esforço”. (S3/900a Schweizer II 994).
Na atualidade
firmas exaltam o dito: “Faça o bem e fale a respeito”. Elas visam a dar
publicidade aos benefícios que realizam para outros, com a finalidade de chamar
a atenção e aumentar as vendas. Amma Sinclética, uma mulher que vivia no
deserto e que teve notoriedade como eremita (faleceu por volta do ano 400 com a
idade de 84 anos), vê isso de forma diferente. Quando colocamos nossa virtude
com clareza exagerada na luz, a fim de que todas a vejam, ela desaparece. A
virtude carece de encobrimento, da mesma forma que um tesouro tem que ser
oculto. Pois, se for mostrado a todos, perde valor, e pô-lo muitas vezes à luz
lhe trará prejuízos. Observamos isso com livros preciosos que se tornam
amarelados quando expostos à luz.
E não
obstante, a palavra de Amma Sinclética parece estar em contradição com a
palavra de Jesus, segundo a qual devemos colocar nossa luz sobre o candelabro,
e não debaixo do alqueire: “É assim que deve brilhar vossa luz diante dos
homens, para que vejam as boas obras e glorifiquem vosso Pai, que está nos céus”
(Mt 5,16). Aqui, entretanto, Jesus tem em mente a comunidade cristã. Ela deve
ser testemunha do Reino de Deus por meio de sua ação para fora. Através dela a
luz de Deus deve brilhar entre as pessoas. Jesus não pede que mostremos nossas
virtudes de tal forma que as pessoas venham a nos louvar. Elas devem, ao
contrário, louvar o Pai do céu quando veem como nos deixamos iluminar pela sua
luz e fazemos boas obras em seu poder. págs. 52-53.
Amma Sinclética
tem em vista a pessoa. Ela deve se deixar perpassar pelo Espírito de Jesus e
adquirir sua virtude, realizando o bem para fora. Ela tem em mente a outra
palavra de Jesus, de que devemos orar, jejuar e dar esmolas em segredo. Pois,
se fizermos publicidade de nossa piedade deixamos de atingir o seu verdadeiro
objetivo: ter abertura para Deus e entregar-se totalmente a Ele. Nós sempre
vivemos em tensão: por um lado as pessoas devem poder reconhecer em nós que
vivemos do Espírito de Jesus; por outro lado, não devemos nos vangloriar como
exemplos de pessoas virtuosas. É preciso um espaço de intimidade e encobrimento
para realmente praticar o bem. Uma conversa na qual auxilio alguém necessita da
atmosfera de sigilo e confiança. Também minha relação com Deus, na qual me abro
totalmente para Deus, entregando-me a Ele, necessita de encobrimento. Não posso
me vangloriar de minhas orações, de minha espiritualidade. Se eu sou espiritual
ou não, isso não se mostra em longas orações ou meditações, mas em minha
irradiação para fora. Nisso se torna claro se estou perpassado pela luz de
Jesus ou se só pratico minha virtude para ser reconhecido por outros. Se eu
colocar minha virtude nesse tipo de destaque ela desparece ou se diluirá como
cera ao sol.
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