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22 de janeiro de 2026

Algumas das histórias que selecionei do livro de Anselm Grün – A sabedoria do deserto: 52 histórias de monges para uma vida plena. (1ª Parte)

Anselm Grün; Sabedoria dos pais do deserto; livro; cristianismo; monges benedetinos
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Teus pecados, meus pecados

 

Um irmão na sketis caiu em pecado. Fez-se uma reunião e foi solicitada a presença de Abbas Moisés. Ele, porém, não quis ir. Depois disso, o sacerdote lhe enviou a solicitação: “Vem, pois o povo te espera!” Moisés se levantou e foi. Ele pegou um cesto esburacado, encheu-o de areia e colocou-o sobre os ombros. Os irmãos foram ao seu encontro e lhe disseram: “O que é isso, Pai? Então falou o ancião: “Isso são meus pecados. Atrás de mim eles caem fora e não os vejo, e agora vim hoje para julgar pecados alheios”. Quando ouviram isso, não falaram mais nada para o irmão, mas o perdoaram (Moses 2, Apo 496).

 

Atualmente é moda julgar outras pessoas. Assim que um político ou um empresário comete um erro, toda a nação cai sobre eles e os julga; há indignação e revolta contra essas pessoas. Hoje impera uma verdadeira cultura da indignação e da revolta. Muitas vezes sou contactado por emissoras de televisão para dizer algo sobre esta ou aquela pessoa e seus comportamentos errôneos. Indignação moral é o que se espera de mim. Mas sempre digo: “Sobre pessoas não falo nada. Se não conheço uma pessoa, também não digo nada sobre o seu comportamento”. Não tenho vontade alguma de me indignar com os outros e, dessa forma, tirar delas sua proteção, sua “armadura” ou as joias que os adornam. Não quero me indignar com eles por determinação alheia, de me colocar acima deles para que, a partir da galeria, olhar para baixo em sua direção e julgá-los. (págs. 38 – 39).

A tendência de julgar os outros quando cometem um erro já existia entre os antigos monges. Aconteceu que um irmão incorreu em pecado. Qual teria sido o seu pecado, isso não é dito. Mas este tinha chegado ao conhecimento dos demais. Então os monges fizeram uma reunião a fim de condená-lo e, talvez, puni-lo. Para essa reunião havia o desejo de convidar o famoso Monge Moisés, a fim de que, com seu juízo, o encontro ganhasse importância. Moisés era um monge de pele escura; anteriormente ele fora escravo. O seu senhor o expulsou por causa de um roubo. Depois disso ele se uniu a um bando de ladrões, vindo a tornar-se o seu chefe. Por último ele se converteu e se tornou um monge piedoso e humilde. Entre os seus coirmãos sesse monge era tido como um modelo de santidade. Inicialmente Moisés não queria ir. Mas, após a insistência do sacerdote, ele foi e fez uma prédica aos irmãos com uma ação simbólica, que eles jamais esqueceram. Moisés não condenou ninguém, nem mesmo a reunião. Pela sua ação simbólica, no entanto – o cesto esburacado, do qual escorria a areia –, ele mostrou o que os monges estavam aprontando com o irmão. Cada um de nós carrega um cesto repleto de pecados. Mas nós seguramos o cesto de tal maneira que os pecados são derramados atrás de nós, e nós não o vemos. Com um cesto assim sobre os ombros seria melhor não julgarmos ninguém. Os monges entenderam essa prédica. Em vez de julgarem o irmão, eles o perdoaram.

Às vezes precisaríamos, também hoje, de um Abbas Moisés que fizesse calar, por meio de sua ação simbólica, toda a gritaria julgadora da multidão, não a julgando, mas lhe colocando diante dos olhos um espelho que impossibilitasse seu juízo sobre outras pessoas. Abbas Moisés expressa em sua ação simbólica aquilo que Jesus disse aos fariseus que lhe trouxeram a mulher adúltera: “Quem dentre vós não tiver pecado, atire a primeira pedra!” (Jo 8,7). Os monges interpretaram essa palavra de Jesus da seguinte maneira: “Quando vires outra pessoa pecando, dize: Eu pequei”. Devemos ver os erros do outro como espelho no qual visualizamos nossos próprios erros. Então passará a vontade de julgar. Iremos lidar misericordiosamente com os erros dos outros, como fez Abba Moisés. Pois veremos nossos próprios erros no erro do outro. (págs. 39 – 40).

 

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No espelho

 

Alguém contou: “Três trabalhadores (philoponoi: amantes do esforço) eram amigos, e um deles optou por pacificar pessoas com contendas, segundo a palavra: Bem aventurados os pacificadores. O segundo decidiu cuidar dos doentes. O terceiro se pôs a caminho para descansar no deserto. O primeiro se atormentava com as brigas entre as pessoas, não conseguiu pacificar todas elas e caiu na akedia. Ele foi até aquele que ajuda os doentes e também o encontrou desanimado, uma vez que não conseguia alcançar o cumprimento daquilo a que se havia proposto. Então os dois decidiram ir ver aquele que cultivava o descanso. Eles lhe contaram sua angústia e pediram que lhes dissesse o que necessitavam colocar em ordem. Ele ficou em silêncio por um tempo, colocou água num frasco e lhes falou: ‘Observai a água’ – estava agitada. Depois de um tempo voltou a falar-lhes: ‘Observai agora como a água se acalmou’. E, enquanto observavam a água, viram seus rostos como que num espelho, e ele lhes falou: ‘Assim também se dá quando alguém está em meio às pessoas: ele não vê os seus pecados em virtude da agitação, mas quando repousa e, sobretudo, no deserto, ele vê seus erros’” (N 134).

 

Os primeiros dois amigos fazem aquilo que Jesus pede de nós cristãos: promover a paz entre as pessoas que têm rixas e cuidar de doentes. Trata-se, pois, de uma boa obra. Todavia, ambos acabam na akedia. (págs. 69 - 70). Eles notam que não conseguem apaziguar toda contenda nem ajudar todo doente; percebem sua limitação. Mas aparentemente existem ainda outros motivos para caírem na akedia, que é a incapacidade de permanecer focado em um determinado momento. Assim, eles se tornam irrequietos, fazem isto e aquilo, mas nada há que os satisfaça verdadeiramente. E, interiormente, passam a ficar cansados e desanimados, não tendo mais vontade para nada. Aquilo que, inicialmente, faziam com entusiasmo, a saber, pacificar pessoas e curar doentes, agora se tornou difícil para eles. Não sentem mais alegria alguma naquilo que fazem. Em sua necessidade, vão até o terceiro amigo, que lhes mostra, na imagem da água, qual o seu verdadeiro problema. Enquanto a água estiver agitada eles não veem a si próprios como num espelho, não vendo igualmente seus pecados e erros. A imagem do espelho, no qual devemos olhar para reconhecer a nós mesmos, goza de predileção por muitos místicos. Platão já fazia uso dela. Para ele, o verdadeiro espelho é o próprio Deus. Se olharmos para Ele, nos veremos com clareza, reconheceremos o que em nós está turvo e não corresponde à sua clareza.

Aparentemente, o terceiro amigo identifica a causa do abatimento, ou seja, que seus dois amigos deixam de olhar para si mesmos em meio às muitas boas ações, que não dão atenção à sua própria alma e, acima de tudo, que não reconheceram seus próprios erros. Em meio a todo bem que praticamos sempre se infiltram motivos desonrosos. Gostamos de aparentar que somos pessoas boas com nossas boas ações. Ou ignoramos nossos sentimentos negativos; ignoramos as resistências internas do corpo e da alma. Sempre continuamos a trabalhar, por acharmos que estamos fazendo algo bom. Mas, na verdade, nem notamos que não fazemos nada de bom, mas que só queremos nos afirmar. Não queremos questionar a nós mesmos. Por isso, simplesmente não paramos de agir. (p. 70).

Ver os pecados no espelho não configura visão pessimista do ser humano. Pecado significa: viver minha vida de forma errada, passar ao largo de mim e de minha vontade. Corremos o grande perigo de viver nossa vida erroneamente, de não vivermos da forma correspondente à nossa essência. E a própria verdade também pode ser perdida justamente na prática do bem. Podemos viver sem considerar os nossos limites; vivemos acima de nossas possibilidades porque achamos que estamos certos. Com as boas obras tampas as dúvidas internas que temos em nosso labor. Sequer tiramos um pouco de tempo para perguntar o que os outros, de fato, necessitam. Pensamos que realizamos o bem, e assim sempre continuamos, sem nos questionar. E isso conduz – como vimos nessa antiga história monástica – ao abatimento ou, como diríamos hoje, ao esgotamento, ao burnout. Não se trata de irmos todos para o deserto, como o terceiro amigo. Mas, em meio às nossas atividades, necessitamos continuamente de momentos de descanso, nos quais podemos olhar na água com num espelho, para reconhecer a nós e a nossa verdade, como também para sentir o que nos cabe fazer no momento. (p. 71).

 

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O exame de prestação de contas

 

Um irmão se aproximou de um Padre antigo e lhe perguntou: “Abba, por que meu coração está endurecido e por que não temo a Deus? O antigo Padre lhe falou: “Creio que se uma pessoa se prende ao exame da prestação de contas (elenchos) em seu coração, ela recebe o temor de Deus”. O irmão lhe disse: “O que vem a ser o exame de prestação de contas? Então lhe falou o antigo Padre: “É quando uma pessoa examina sua alma em toda ação e lhe diz: Lembra-te de que precisas comparecer perante Deus. Mas ela também deve dizer o seguinte: O que pretendo fazer com uma pessoa? Acredito que, se alguém cumprir isso, assim como referido, receberá o temor de Deus” (N 138).

 

“O temor do Senhor é princípio da sabedoria. Sábios são aqueles que agem de acordo com isso.” Assim o lemos no Sl 111,10. Temor do Senhor não significa ter medo de Deus. É, isto sim, reverência a Deus e a postura de deixar ser atingido por Ele. Em última análise, expressa a seriedade estabelecida na relação com Deus, que exerce papel decisivo em nossa vida. Temor de Deus, que exerce papel decisivo em nossa vida. Temor de Deus também se refere àquilo que a psicologia da religião designa como o aspecto do tremendum; Deus é também aquele que nos faz estremecer, por ser majestoso, glorioso e santo. Ele é uma realidade poderosa que entra em nossa vida e nos toca. Quem, em sua ação, se deixa orientar pelo temor de Deus é sagaz e age de acordo com sua razão; é sábio. (p. 72).

O contrário do temor de Deus é o coração endurecido. Ele não se deixa mais sensibilizar por nada. Também existem muitas pessoas piedosas que oram diariamente, mas seu coração permanece endurecido, em relação a Deus e em relação ao ser humano. Uma pessoa com coração endurecido perguntou a um experiente Pai antigo sobre como ele poderia ter o temor de Deus. Esse lhe deu dois conselhos: em cada ação deve testar sua alma e lhe dizer: lembra-te de que precisas comparecer perante Deus. Deve, portanto, sempre colocar todo o seu pensar e agir em função de sua relação com Deus. E, em tudo o que fizer, deve ter Deus em mente, aquele Deus perante o qual precisará prestar contas. A prestação de contas, entretanto, não tem aspectos exterior, mas significa que em tudo deve-se contar com Deus, que leva Deus a sério. O segundo conselho é se perguntar continuamente: O que eu quero fazer com um ser humano? Devo, pois, colocar todo o meu comportamento na relação com o ser humano. Isso é o que o filósofo judeu Hans Jonas denomina “responsabilidade”. Em tudo o que fazemos assumimos responsabilidade, não só por nós, mas pelos seres humanos, e isso não só pelas pessoas que agora vivem, mas também pelas que viverão no futuro. (p. 73).

Muitas pessoas se esforçam para viver de forma autêntica e boa, mas não se relacionam com Deus nem com os seres humanos. Para que isso aconteça é necessário que se relacionem com e com o próximo em todas as atividades executadas. Dessa maneira, seu agir e seu falar ficarão corretos. Então viverão de acordo com o seu eu verdadeiro e com o que agrada a Deus.



13 de novembro de 2025

Convivendo com o mal: A luta contra os demônios no monaquismo antigo (1ª Parte)

Convivendo com o mal: A luta contra os demônios no monaquismo antigo; livros, cristianismo
Cap. 1 - A natureza dos demônios

A doutrina dos antigos monges sobre os demônios é uma doutrina prática, e não teórica. É mais importante sabermos conviver retamente com os demônios do que especularmos sobre sua natureza e sua essência. Não obstante, é possível encontrarmos algumas afirmações sobre sua natureza. Os demônios inicialmente eram anjos. Mas separaram-se de Deus, e por isso tornaram-se maus. Agora eles tentam seduzir os homens para o mal. Evágrio conhece três categorias de seres racionais: os anjos, os demônios e os homens. E a cada uma destas três ele atribui uma das três forças da alma, a nous (espírito) aos anjos, o thymos aos demônios, e a epithymia (o desejo) aos homens. O thymos é a parte emocional da alma, a parte excitável, de onde surgem as emoções violentas, como a ira, o ódio e a inveja. O demônio caracteriza-se pela predominância do thymos, a parte da alma que pode se tornar excitada e confusa. A ira cega, que se enfurece e que esbraveja contra os outros, é para Evágrio uma essência do demônio. Uma vez ele chega a identificar o demônio com um homem possuído e excitado pela ira:

Vício algum faz a razão transformar-se de tal modo em demônio como a ira, porque ela faz a parte emocional da alma revoltar-se [...]. Não julgues que o demônio seja outra coisa senão o homem possuído pela ira.

Aos demônios os antigos monges também atribuíam um corpo, se bem que essencialmente mais leve do que o dos homens. Consiste sobretudo de ar. O ar é também a região onde os demônios se encontram. Eles podem mover-se mais rapidamente que os homens, eles voam. São frios como o gelo. Normalmente são invisíveis para nós, mas podem assumir determinadas aparências. Mas não podem transformar-se em um corpo, como os anjos, mas apenas imitar as formas e as cores de um corpo, e assim nos iludir. Mas também podem tornar-se perceptíveis para nós como vozes que se ouvem. O ponto de contato entre a capacidade do conhecimento humano e os demônios é a fantasia. Os demônios provocam em nós imagens da fantasia, ou fazem-nos sonhar enquanto dormimos. Como possuem um corpo, os demônios também estão ligados a objetos corpóreos, através dos quais eles agem sobre a fantasia. Provocam imagens de coisas visíveis na alma do homem, e de acordo com sua natureza de thymos eles fazem estas imagens ser acompanhadas de violentas emoções

Frequentemente utilizam-se de nossas lembranças, e então provocam emoções com as imagens da memória, através das quais podem impelir-nos na direção intencionada. Seu instrumento usual para agir sobre nós são os maus pensamentos. Com frequência os maus pensamentos são identificados com os demônios, de tal forma que nem sempre se pode saber se os maus pensamentos são eles próprios os demônios ou se são provocados pelos demônios. A luta com os demônios realiza-se sobretudo como luta com os próprios pensamentos, onde trata-se sempre de pensamentos carregados de afetos, portanto nunca pensamentos puramente intelectuais. Pois só os pensamentos de caráter emocional é que são por Evágrio atribuídos aos demônios. Ele distingue pensamentos angélicos, pensamentos demoníacos e pensamentos puramente humanos. Os pensamentos que nos são inspirados pelos anjos fazem indagações a respeito das coisas, por que elas foram criadas, para que servem, qual sua natureza e o que elas simbolizam. Os pensamentos puramente humanos, só podem reproduzir no espírito a forma de uma coisa. Os pensamentos provenientes dos demônios sempre veem as coisas com paixão e emoção. Eles consideram, por exemplo, como podemos possuir as coisas, que prazer elas nos proporcionam, ou se podem atrair para nós fama. [1].

Os demônios são espertos, traiçoeiros, eles mentem e enganam. Em comparação com os anjos são ignorantes. Eles não podem olhar para o íntimo da alma do homem, mas dependem dos comportamentos visíveis para reconhecer o estado da alma humana: da atitude corporal, da voz, da maneira de andar. Não obstante, muitas vezes eles provocam espanto nas pessoas predizendo-lhes os acontecimentos. Antão explica esta capacidade através da leveza de seu corpo. Quando irmãos se põem a caminho para fazer-nos uma visita, eles correm à frente e antecipam-nos sua chegada. [...] p. 19.

Os demônios são capazes de dominar um homem de tal forma que ele se torna possesso. Provocam doenças como esquizofrenia, epilepsia, loucura e histeria. As histórias dos monges descrevem os mais diversos sintomas das doenças psíquicas, por eles atribuídas aos demônios. Um monge come suas próprias fezes (coprofagia), ou se coça até provocar feridas. Outros são empurrados pelos demônios para um lado e para outro, alguns impelidos ao suicídio.

Se analisarmos mais de perto as afirmações dos monges a respeito dos demônios, percebemos que são tentativas de explicar os fenômenos. Não são definições, nem pretendem saber exatamente o que os demônios realmente são. Em sua linguagem mitológica os monges descrevem realidades psíquicos. Jung, como empirista, tenta abordar os mesmos fenômenos descritos pelos monges em sua demonologia. As duas tentativas de abordar a realidade devem simplesmente ser postas lado a lado, sem se emitir qualquer juízo sobre qual é a que explica melhor a realidade. [...].

Jung fala dos demônios em conexão com sua doutrina dos complexos autônomos. A projeção é “uma transferência inconsciente e não intencionada de um fato psíquico subjetivo para um objeto exterior”. Quando nós transferimos desejos ou emoções para o outro, não estamos vendo nele a realidade. Deixamo-nos enganar por nossas próprias projeções, somos dominados por elas. Esta situação era descrita pelos antigos como ser enganado por um demônio. De modo semelhante, era através do demônio que se entendia o efeito das projeções alheias sobre nós. Quando outros nos lançam suas projeções, eles com isto exercem sobre nós um poder a que fica difícil subtrair-nos. As projeções são como uma espécie de projétil que um homem mau nos atira e que nos faz adoecer. M. L. von Franz, uma discípula de C. G. Jung, escreve a respeito deste efeito negativo que as projeções alheias provocam sobre nós:

“Logo que uma pessoa projeta sobre outra um pouco de sua sombra, esta se sente estimulada a tais discursos maldosos. As palavras (acusações, indiretas) que atingem o outro como projéteis simbolizam o fluxo de energia negativa que alguém projeta sobre o outro. Quando somos alvo das projeções negativas de outra pessoa, muitas vezes nós sentimos quase que fisicamente o ódio do outro, como se fosse um projetil”.

Para Jung, a causa das projeções são os complexos. Jung define o complexo como...

“A imagem de uma determinada situação psíquica possuidora de viva carga emocional, e que além disto comprova-se como incompatível com a situação ou a atitude habitual da consciência. Esta imagem possui uma forte unidade interior, possui sua integridade própria, além de dispor de um grau de autonomia relativamente elevado”.

Na raiz de um complexo encontra-se um conteúdo com ênfase no sentimento, e cuja menção desperta em nós emoções violentas, mas que nós reprimimos de nossa consciência. Um complexo leva-nos a “um estado de falta de liberdade, a pensarmos e a agirmos compulsivamente”. p. 22

Ele possui uma certa autonomia. No sonho os complexos aparecem personificados. Por isso Jung mostra compreensão para o fato de os antigos haverem considerado os como seres autônomos. Com bastante frequência eles vêm ao nosso encontro como se fossem pessoas. Para Jung eles são partes da psique sob tensão e, sendo inconscientes, muitas vezes conseguem alcançar o domínio sobre o eu. Jung chama isto então de identidade de complexo, e acha:

“Perfeitamente moderno, na Idade Média este conceito possuía um nome diferente: chamava-se possessão. Não achamos, de certo, que esta situação seja inofensiva, mas em princípio não existe diferença entre um complexo comum e as selvagens blasfêmias de um possesso. Trata-se apenas de uma diferença de grau”.

[...].

Jung faz distinção entre dois complexos diferentes: o complexo da alma e o complexo do espírito. O complexo da alma ele o atribui ao inconsciente da pessoa. Portanto ele surge por repressão de conteúdos que por razões morais ou estéticas foram excluídos da convivência. O complexo da alma precisa ser integrado pelo homem. A “perda” de um complexo da alma é sentida como doentia. O complexo do espírito surge quando determinados conteúdos do inconsciente coletivo penetram na consciência. O complexo do espírito é percebido pelo homem como estranho, como uma coisa a um tempo ameaçadora e fascinante. Logo que tal conteúdo é retirado da consciência, a pessoa sente-se aliviada. No complexo do espírito algo de estranho vem ao nosso encontro, sobrevêm-nos pensamentos estranhos e inauditos, o mundo se modifica, a gente sente-se ameaçado, atacado.

No complexo do espírito não nos resta outra escolha senão expulsá-lo da esfera da mente. Os antigos expressavam isto dizendo que os demônios têm que ser expulsos. Franz fez a experiência de que com alguns pacientes não existia outra alternativa senão subtrair-se ao confronto com o demônio interior através da fuga.

Não se pode senão aconselhar ao paciente que na medida do possível mantenha-se longe das condições e situações que possam entrar em contato com o complexo [...]. De fato, frente a determinadas poderes sombrios no próprio íntimo não se pode fazer outra coisa senão fugir, ou de alguma maneira mantê-los afastados.

Jung vê uma íntima ligação entre o complexo e o afeto. Ele acha que “todo afeto tende a transformar-se da hierarquia da consciência e se possível arrastar atrás de si o eu”. Jung lembra-nos a experiência que fazemos quando nos deixamos arrastar por declarações imprudentes. Dizemos então que “a língua nos traiu”, com o que manifestamente estamos expressando que o discurso transformou-se em uma entidade autônoma, que nos arrastou e nos levou consigo. Por isso não é senão muito natural que os antigos vissem aí a atividade de um espírito, de um demônio. O demônio seria a imagem de um afeto autônomo – um afeto personificado.

Retomando das explanações de Jung para a demonologia dos monges da Antiguidade, precisamos primeiramente fazer algumas distinções. Jung se ocupa sobretudo com o fenômeno da possessão, por conseguinte da doença. Também os antigos monges relacionam a possessão com os demônios. Mas para eles não é a possessão que constitui o fenômeno mais importante. Jung é médico, e como médico ele está interessando em curar doentes. Mas para os monges a cura dos possessos é apenas uma consequência do reto convívio com os demônios. Para os monges o que importa na luta com os demônios é o ocupar-nos todos os dias com o mal, a maneira de nos comportarmos quando somos desafiados e tentados. [...]. p. 24. 

Neste sentido o ocupar-se com os demônios é uma maneira proveitosa de lidar com o inconsciente, sobretudo com os afetos e emoções. Projetando certas realidades íntimas sore os demônios, as coisas e as pessoas se libertam de ficar presas às projeções. Na demonologia os monges ficam conhecendo o mecanismo de projetarmos sobre os outros nossos próprios desejos e emoções. Não é o próximo que é culpado por ficarmos com raiva, mas sim um demônio, que através de uma pessoa ou de um comportamento que os perturba que provocar raiva em nós, para nos acorrentar ao afeto negativo. p. 25.

Quando falam dos demônios, os monges estão levando em conta a seriedade e multiplicidade das ameaças que mal significa para nós. Não é apenas com um pouquinho de boa vontade que se vence o mal. Pelo contrário, o mal nos enfrenta como um demônio refinado e com técnicas bem boladas. Quando o homem se abre à sua própria realidade, ele sente-se atacado e em perigo por causa do abismo impenetrável do mal. É esta experiência que é expressa pelos monges quando atribuem as ameaças do mal ao demônio. O que importa não é conceito, mas sim o fenômeno que o conceito ou imagem do demônio deseja interpretar. O que importa para a demonologia, é dar-nos uma orientação para lidarmos corretamente com o mal em nós. Mais importante, portanto, do que conhecer a essência dos demônios é conhecer as suas técnicas. GRÜM. Anselm. p. 25.


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