Teus pecados, meus
pecados
Um irmão na sketis caiu em pecado. Fez-se uma reunião
e foi solicitada a presença de Abbas Moisés. Ele, porém, não quis ir. Depois
disso, o sacerdote lhe enviou a solicitação: “Vem, pois o povo te espera!”
Moisés se levantou e foi. Ele pegou um cesto esburacado, encheu-o de areia e
colocou-o sobre os ombros. Os irmãos foram ao seu encontro e lhe disseram: “O que
é isso, Pai? Então falou o ancião: “Isso são meus pecados. Atrás de mim eles
caem fora e não os vejo, e agora vim hoje para julgar pecados alheios”. Quando ouviram
isso, não falaram mais nada para o irmão, mas o perdoaram (Moses 2, Apo 496).
Atualmente é moda julgar outras pessoas. Assim que um político
ou um empresário comete um erro, toda a nação cai sobre eles e os julga; há indignação
e revolta contra essas pessoas. Hoje impera uma verdadeira cultura da indignação
e da revolta. Muitas vezes sou contactado por emissoras de televisão para dizer
algo sobre esta ou aquela pessoa e seus comportamentos errôneos. Indignação moral
é o que se espera de mim. Mas sempre digo: “Sobre pessoas não falo nada. Se não
conheço uma pessoa, também não digo nada sobre o seu comportamento”. Não tenho
vontade alguma de me indignar com os outros e, dessa forma, tirar delas sua proteção,
sua “armadura” ou as joias que os adornam. Não quero me indignar com eles por
determinação alheia, de me colocar acima deles para que, a partir da galeria,
olhar para baixo em sua direção e julgá-los. (págs. 38 – 39).
A tendência de julgar os outros quando cometem um erro já existia
entre os antigos monges. Aconteceu que um irmão incorreu em pecado. Qual teria
sido o seu pecado, isso não é dito. Mas este tinha chegado ao conhecimento dos demais.
Então os monges fizeram uma reunião a fim de condená-lo e, talvez, puni-lo. Para
essa reunião havia o desejo de convidar o famoso Monge Moisés, a fim de que,
com seu juízo, o encontro ganhasse importância. Moisés era um monge de pele
escura; anteriormente ele fora escravo. O seu senhor o expulsou por causa de um
roubo. Depois disso ele se uniu a um bando de ladrões, vindo a tornar-se o seu
chefe. Por último ele se converteu e se tornou um monge piedoso e humilde. Entre
os seus coirmãos sesse monge era tido como um modelo de santidade. Inicialmente
Moisés não queria ir. Mas, após a insistência do sacerdote, ele foi e fez uma
prédica aos irmãos com uma ação simbólica, que eles jamais esqueceram. Moisés não
condenou ninguém, nem mesmo a reunião. Pela sua ação simbólica, no entanto – o cesto
esburacado, do qual escorria a areia –, ele mostrou o que os monges estavam
aprontando com o irmão. Cada um de nós carrega um cesto repleto de pecados. Mas
nós seguramos o cesto de tal maneira que os pecados são derramados atrás de nós,
e nós não o vemos. Com um cesto assim sobre os ombros seria melhor não
julgarmos ninguém. Os monges entenderam essa prédica. Em vez de julgarem o
irmão, eles o perdoaram.
Às vezes precisaríamos, também hoje, de um Abbas
Moisés que fizesse calar, por meio de sua ação simbólica, toda a gritaria
julgadora da multidão, não a julgando, mas lhe colocando diante dos olhos um
espelho que impossibilitasse seu juízo sobre outras pessoas. Abbas
Moisés expressa em sua ação simbólica aquilo que Jesus disse aos fariseus que
lhe trouxeram a mulher adúltera: “Quem dentre vós não tiver pecado, atire a primeira
pedra!” (Jo 8,7). Os monges interpretaram essa palavra de Jesus da seguinte
maneira: “Quando vires outra pessoa pecando, dize: Eu pequei”. Devemos ver os
erros do outro como espelho no qual visualizamos nossos próprios erros. Então passará
a vontade de julgar. Iremos lidar misericordiosamente com os erros dos outros,
como fez Abba Moisés. Pois veremos nossos próprios erros no erro do
outro. (págs. 39 – 40).
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No espelho
Alguém contou: “Três
trabalhadores (philoponoi: amantes do esforço) eram amigos, e um deles
optou por pacificar pessoas com contendas, segundo a palavra: Bem aventurados
os pacificadores. O segundo decidiu cuidar dos doentes. O terceiro se pôs a
caminho para descansar no deserto. O primeiro se atormentava com as brigas
entre as pessoas, não conseguiu pacificar todas elas e caiu na akedia.
Ele foi até aquele que ajuda os doentes e também o encontrou desanimado, uma
vez que não conseguia alcançar o cumprimento daquilo a que se havia proposto.
Então os dois decidiram ir ver aquele que cultivava o descanso. Eles lhe
contaram sua angústia e pediram que lhes dissesse o que necessitavam colocar em
ordem. Ele ficou em silêncio por um tempo, colocou água num frasco e lhes
falou: ‘Observai a água’ – estava agitada. Depois de um tempo voltou a
falar-lhes: ‘Observai agora como a água se acalmou’. E, enquanto observavam a
água, viram seus rostos como que num espelho, e ele lhes falou: ‘Assim também
se dá quando alguém está em meio às pessoas: ele não vê os seus pecados em
virtude da agitação, mas quando repousa e, sobretudo, no deserto, ele vê seus
erros’” (N 134).
Os primeiros dois amigos fazem aquilo que Jesus pede de nós
cristãos: promover a paz entre as pessoas que têm rixas e cuidar de doentes.
Trata-se, pois, de uma boa obra. Todavia, ambos acabam na akedia. (págs.
69 - 70). Eles notam que não conseguem apaziguar toda contenda nem ajudar todo
doente; percebem sua limitação. Mas aparentemente existem ainda outros motivos
para caírem na akedia, que é a incapacidade de permanecer focado em um
determinado momento. Assim, eles se tornam irrequietos, fazem isto e aquilo,
mas nada há que os satisfaça verdadeiramente. E, interiormente, passam a ficar
cansados e desanimados, não tendo mais vontade para nada. Aquilo que,
inicialmente, faziam com entusiasmo, a saber, pacificar pessoas e curar
doentes, agora se tornou difícil para eles. Não sentem mais alegria alguma
naquilo que fazem. Em sua necessidade, vão até o terceiro amigo, que lhes
mostra, na imagem da água, qual o seu verdadeiro problema. Enquanto a água
estiver agitada eles não veem a si próprios como num espelho, não vendo igualmente
seus pecados e erros. A imagem do espelho, no qual devemos olhar para
reconhecer a nós mesmos, goza de predileção por muitos místicos. Platão já
fazia uso dela. Para ele, o verdadeiro espelho é o próprio Deus. Se olharmos
para Ele, nos veremos com clareza, reconheceremos o que em nós está turvo e não
corresponde à sua clareza.
Aparentemente, o terceiro amigo identifica a causa do
abatimento, ou seja, que seus dois amigos deixam de olhar para si mesmos em
meio às muitas boas ações, que não dão atenção à sua própria alma e, acima de
tudo, que não reconheceram seus próprios erros. Em meio a todo bem que
praticamos sempre se infiltram motivos desonrosos. Gostamos de aparentar que
somos pessoas boas com nossas boas ações. Ou ignoramos nossos sentimentos
negativos; ignoramos as resistências internas do corpo e da alma. Sempre continuamos
a trabalhar, por acharmos que estamos fazendo algo bom. Mas, na verdade, nem
notamos que não fazemos nada de bom, mas que só queremos nos afirmar. Não
queremos questionar a nós mesmos. Por isso, simplesmente não paramos de agir. (p.
70).
Ver os pecados no espelho não configura visão pessimista do
ser humano. Pecado significa: viver minha vida de forma errada, passar ao largo
de mim e de minha vontade. Corremos o grande perigo de viver nossa vida
erroneamente, de não vivermos da forma correspondente à nossa essência. E a
própria verdade também pode ser perdida justamente na prática do bem. Podemos
viver sem considerar os nossos limites; vivemos acima de nossas possibilidades
porque achamos que estamos certos. Com as boas obras tampas as dúvidas internas
que temos em nosso labor. Sequer tiramos um pouco de tempo para perguntar o que
os outros, de fato, necessitam. Pensamos que realizamos o bem, e assim sempre
continuamos, sem nos questionar. E isso conduz – como vimos nessa antiga
história monástica – ao abatimento ou, como diríamos hoje, ao esgotamento, ao burnout.
Não se trata de irmos todos para o deserto, como o terceiro amigo. Mas, em meio
às nossas atividades, necessitamos continuamente de momentos de descanso, nos
quais podemos olhar na água com num espelho, para reconhecer a nós e a nossa
verdade, como também para sentir o que nos cabe fazer no momento. (p. 71).
25
O exame de
prestação de contas
Um irmão se aproximou de um Padre antigo e lhe perguntou:
“Abba, por que meu coração está endurecido e por que não temo a Deus? O antigo
Padre lhe falou: “Creio que se uma pessoa se prende ao exame da prestação de
contas (elenchos) em seu coração, ela recebe o temor de Deus”. O irmão
lhe disse: “O que vem a ser o exame de prestação de contas? Então lhe falou o
antigo Padre: “É quando uma pessoa examina sua alma em toda ação e lhe diz:
Lembra-te de que precisas comparecer perante Deus. Mas ela também deve dizer o
seguinte: O que pretendo fazer com uma pessoa? Acredito que, se alguém cumprir
isso, assim como referido, receberá o temor de Deus” (N 138).
“O temor do Senhor é princípio da sabedoria. Sábios são
aqueles que agem de acordo com isso.” Assim o lemos no Sl 111,10. Temor do
Senhor não significa ter medo de Deus. É, isto sim, reverência a Deus e a
postura de deixar ser atingido por Ele. Em última análise, expressa a seriedade
estabelecida na relação com Deus, que exerce papel decisivo em nossa vida.
Temor de Deus, que exerce papel decisivo em nossa vida. Temor de Deus também se
refere àquilo que a psicologia da religião designa como o aspecto do tremendum;
Deus é também aquele que nos faz estremecer, por ser majestoso, glorioso e
santo. Ele é uma realidade poderosa que entra em nossa vida e nos toca. Quem,
em sua ação, se deixa orientar pelo temor de Deus é sagaz e age de acordo com
sua razão; é sábio. (p. 72).
O contrário do temor de Deus é o coração endurecido. Ele não se deixa mais sensibilizar por nada. Também existem muitas pessoas piedosas que oram diariamente, mas seu coração permanece endurecido, em relação a Deus e em relação ao ser humano. Uma pessoa com coração endurecido perguntou a um experiente Pai antigo sobre como ele poderia ter o temor de Deus. Esse lhe deu dois conselhos: em cada ação deve testar sua alma e lhe dizer: lembra-te de que precisas comparecer perante Deus. Deve, portanto, sempre colocar todo o seu pensar e agir em função de sua relação com Deus. E, em tudo o que fizer, deve ter Deus em mente, aquele Deus perante o qual precisará prestar contas. A prestação de contas, entretanto, não tem aspectos exterior, mas significa que em tudo deve-se contar com Deus, que leva Deus a sério. O segundo conselho é se perguntar continuamente: O que eu quero fazer com um ser humano? Devo, pois, colocar todo o meu comportamento na relação com o ser humano. Isso é o que o filósofo judeu Hans Jonas denomina “responsabilidade”. Em tudo o que fazemos assumimos responsabilidade, não só por nós, mas pelos seres humanos, e isso não só pelas pessoas que agora vivem, mas também pelas que viverão no futuro. (p. 73).
Muitas pessoas se esforçam para viver de forma autêntica e
boa, mas não se relacionam com Deus nem com os seres humanos. Para que isso
aconteça é necessário que se relacionem com e com o próximo em todas as
atividades executadas. Dessa maneira, seu agir e seu falar ficarão corretos. Então
viverão de acordo com o seu eu verdadeiro e com o que agrada a Deus.
